quinta-feira, 23 de julho de 2015

Quem é Deus?

E que é isto? Interroguei o conjunto do universo acerca do meu Deus e ele respondeu-me: ‘Não sou eu, mas foi ele mesmo que me fez’. Interroguei a terra e ela disse: ‘Não sou eu’; e todas as coisas que nela existem responderam-me o mesmo. Interroguei o mar, e os abismos, e os seres vivos que rastejam, e eles responderam-me: ‘Não somos o teu Deus; procura acima de nós’. Interroguei as brisas que sopram, e o ar todo com os seus habitantes disse-me: ‘Anaxímenes está enganado; eu não sou Deus’. Interroguei o céu, o sol, a lua, as estrelas, e dizem-me: ‘Nós também não somos o Deus que tu procuras’. E disse a todas as coisas que rodeiam as portas da minha carne: ‘Falai-me do meu Deus, já que não sois vós, dizei-me alguma coisa a seu respeito’. E elas exclamaram, com voz forte: ‘Foi ele que nos fez’. Contemplá-las era a minha pergunta e a resposta era a sua beleza. Dirigi-me, então, a mim mesmo e a mim mesmo disse: ‘Tu quem és? ’. E respondi: ‘Um homem’. E eis que estão em mim, ao meu serviço, um corpo e uma alma, uma coisa exterior, outra interior. Qual destas coisas é aquela em que eu devia procurar o meu Deus, que eu já tinha procurado por meio do corpo, desde a terra até ao céu, até onde pude enviar, como mensageiros, os raios dos meus olhos? Mas o interior é, sem dúvida, o melhor. Por isso a este, como presidente e juiz, é que todos os mensageiros do corpo faziam saber as respostas do céu, da terra, e de todas coisas que neles existem, quando dizem: ‘Não somos Deus’ e ‘Foi ele que nos fez’. O homem interior conheceu estas coisas pelo ministério do exterior; eu, enquanto homem interior, conheci estas coisas, eu, eu enquanto espírito, por meio da capacidade de sentir do meu corpo. Interroguei o conjunto do universo acerca do meu Deus, e ele respondeu-me: ‘Não sou eu, mas foi ele que me fez’.

(Santo Agostinho de Hipona, 354-430/ Confissões. Livro X; pg:242-243, editora vozes)