A
Salvação pela fé
A partir desta participação
no modo de ver Jesus, o apóstolo Paulo deixou-nos, nos seus escritos, uma
descrição da existência crente. Aquele que acredita, ao aceitar o dom da fé, é transformado
numa nova criatura, recebe um novo ser, um ser filial, torna-se filho no Filho:
<<Abbá, Pai>> é a palavra mais característica de experiência
filial, é reconhecer o dom originário e radical que está na base da existência
do homem, podendo resumir-se nesta frase de São Paulo aos Coríntios: “Que tens
tu que não tenhas recebido?” (1 Cor 4,7).
É precisamente aqui que se situa o cerne da polêmica do Apóstolo com os
fariseus: a discussão sobre a salvação pela fé ou pelas obras da lei. Aquilo
que São Paulo rejeita é a atitude de quem se quer justificar a si mesmo diante
de Deus através das próprias obras; esta pessoa, mesmo quando obedece aos
mandamentos, mesmo quando realiza obras boas, coloca-se a si própria no centro
e não reconhece que a origem do bem é Deus. Quem atua assim, quem quer ser
fonte da sua própria justiça, depressa a vês exaurir-se e descobre que não pode
sequer aguentar-se na fidelidade à lei; fecha-se, isolando-se do Senhor e dos
outros, e, por isso, a sua vida torna-se vã, as suas obras estéreis, como árvore
longe da água. Assim se exprime Santo Agostinho com a sua linguagem concisa e
eficaz: “Não te afastes d’Aquele que te fez, nem mesmo para te encontrares a ti”.
Quando o homem pensa que, afastando-se de Deus, encontrar-se-á a si mesmo, a sua
existência fracassa (cf. LC 15, 11-24).
O início da salvação é a abertura a algo que nos antecede, a um dom originário
que sustenta a vida e a guarda na existência. Só abrindo-nos a esta origem e
reconhecendo-a é que podemos ser transformados, deixando que a salvação atue em
nós e torne a vida fecunda, cheia de frutos bons. A salvação pela fé consiste
em reconhecer o primado do dom de Deus, como resume São Paulo: “Porque é pela
graça que estais salvos, por meio da fé. E isso não vem de vós, é dom de Deus” (Ef 2,8).
A nova lógica da fé
centra-se em Cristo. A fé em Cristo salva-nos, porque é n’Ele que a vida se
abre radicalmente a um Amor que nos precede e transforma a partir de dentro,
que age em nós e conosco. Vê-se isto claramente na exegese que o Apóstolo dos
gentios fez de um texto do Deuteronômio; uma exegese que se insere na dinâmica
mais profunda do Antigo Testamento. Moisés dia ao povo que o mandamento de Deus
não está demasiado alto nem demasiado longe do homem; não se deve dizer: “Quem
subirá por nós até o céu e no-la irá buscar?” ou “Quem atravessará o mar e
no-la irá buscar?” (cf Dt 30,11-14). Esta
proximidade das palavras de Deus é concretizada por São Paulo na presença de
Jesus no cristão. “Não digas no teu coração: Quem subirá ao céu? Seria para
fazer com que Cristo descesse. Nem digas: Quem descerá ao abismo? Seria fazer
com que Cristo subisse de entre os mortos” (Rm
10,6-7). Cristo desceu a terra e ressuscitou dos mortos: com a sua
encarnação e ressurreição, o Filho de Deus abraçou o percurso inteiro do homem
e habita nos nossos corações por meio do Espírito Santo. A fé sabe que Deus se
tornou muito próximo de nós, que Cristo nos foi oferecido como grande dom que
nos transforma interiormente, que habita em nós, e assim nos dá a luz que
ilumina a origem e o fim da vida, o arco inteiro do percurso humano.
Podemos assim compreender a
novidade, a que a fé nos conduz. O crente é transformado pelo Amor, ao qual se
abriu na fé; e, na sua abertura a este Amor que lhe é oferecido, a sua
existência dilata-se para além dele próprio. São Paulo pode afirmar: “Já não
sou eu que vivo, mas é Cristo que vivo em mim” (Gl 2,20), e exortar: “Que Cristo, pela fé, habite nos vossos corações”
(Ef 3,17). Na fé, o “eu” do crente dilata-se para ser para ser habitado por outro,
para viver num outro, e assim a sua vida amplia-se no Amor. É aqui que se situa
a ação própria do Espírito; é neste Amor que se recebe, de algum modo, a visão
própria de Jesus. Fora desta conformação no Amor, fora da presença do Espírito
que o infunde nos nossos corações (cf Rm
12,3), é impossível confessar Jesus como Senhor (cf 1 Cor 12,3).
Fonte: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20130629_enciclica-lumen-fidei.html
